Quatro perguntas antes dos gráficos
Este estudo começou de uma pergunta simples: o Brasil forma gente demais ou de menos nessas três profissões? Não dá para responder isso sem antes responder outras quatro.
Primeira: qual é a demanda de um país? Não existe número natural, e cada uma das três se mede com uma régua diferente. medicina se mede contra população e doença, e é a única das três com régua internacional pronta (médicos por mil habitantes, que a OMS e o Banco Mundial publicam). direito se mede contra o volume de litígio: um país pode ter pouca gente e muito processo. engenharia se mede contra taxa de investimento e composição do PIB, porque um país que investe 16% do PIB absorve menos engenheiro que um que investe 30%, com a mesma população.
Segunda: como se absorve essa demanda? Depois do diploma cada profissão passa por um funil, e o aperto acontece em um ponto diferente em cada uma. Em medicina o diploma vira registro no CRM quase automaticamente, e o aperto está na residência. Em direito o diploma passa pelo Exame de Ordem, que reprova a maioria. Em engenharia o registro no CREA nem sempre é exigido na prática, e o aperto está no mercado, onde ninguém consegue enxergar direito.
Terceira: as profissões estão saturando? É a pergunta que quase todo mundo faz primeiro, e o censo da educação não responde, porque ele registra matrícula e diploma e não diz quem está trabalhando na área. O que ele deixa olhar é o mercado do curso: quantos candidatos disputam cada vaga e quantas vagas ficam vazias no fim da matrícula. Em 2024 engenharia recebeu menos inscrição do que vaga aberta. Tem uma seção no meio do estudo só sobre esse indicador e sobre o que ele não prova.
Quarta: o que pode estar errado nesta própria conta? Deixei uma seção no fim só para isso, porque as armadilhas aqui são grandes o bastante para mudar a conclusão.
Formados por ano, 1994 a 2024
- Medicina
- Direito
- Engenharia
- Engenharia com EaD
INEP, Censo da Educação Superior, sinopses estatísticas de 1995 a 2024, cursos presenciais. Engenharia soma todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia", das cinco áreas em que a classificação do INEP os espalha. Em engenharia aparece também uma linha pontilhada com o ensino a distância somado, disponível a partir de 2009. Medicina e direito não podem ser oferecidos a distância no Brasil. Vagas e ingressantes só existem por curso a partir de 2009. Na série de cursos, o trecho até 1998 fica sombreado porque o INEP mudou a taxonomia em 1999 e desagregou engenharia, o que faz o número saltar sem que nada tenha acontecido no mundo. População: IBGE, projeção revisão 2018.
O que o gráfico mostra de saída
As três subiram, mas com formatos diferentes. direito é a maior em qualquer ano da série e já era grande em 1994. medicina é a menor e é a única que ainda está subindo em 2024, sem sinal de virada. engenharia é a que mais se mexeu: subiu forte até o fim da década de 2010 e depois caiu quase pela metade.
Vale trocar a escala para "por 100 mil habitantes" no controle acima. A população brasileira cresceu cerca de 25% desde 2000, então parte do crescimento absoluto é só o país ficando maior. Depois de descontar isso o crescimento continua grande: entre 2000 e 2024 medicina foi de 4,6 para 17,7 formados por 100 mil habitantes, engenharia de 10,3 para 29,9 e direito de 25,4 para 45,2.
Numa sala com mil brasileiros
Cada boneco é uma pessoa, em 25 linhas de 40. Os coloridos são os profissionais com registro ativo no conselho, na proporção que eles têm na população: 7 advogados, 5 no sistema Confea/CREA e 3 médicos. Os números na legenda estão arredondados para caber num boneco inteiro, e a taxa exata vem ao lado. Registrados: OAB (agosto de 2026), Confea (agosto de 2024) e Demografia Médica no Brasil 2025 (dezembro de 2024). População de 2024 pela projeção do IBGE.
Para cada 100 mil brasileiros
| Profissão | Registrados no conselho | Formados por ano | O que o registro conta |
|---|
Registrados: Demografia Médica no Brasil 2025 (médicos), OAB (advogados) e Confea (engenharia). Formados por ano: INEP, Censo da Educação Superior de 2024, cursos presenciais. População de 2024 pela projeção do IBGE. As três linhas de registro não contam a mesma coisa, e a última coluna diz o que cada uma conta: a do Confea, em particular, cobre o sistema inteiro e não só engenheiros.
A tabela põe as três lado a lado e mostra a ordem de grandeza. Para cada 100 mil brasileiros há hoje 691 advogados inscritos na OAB, 528 profissionais no sistema Confea/CREA e 274 médicos com registro ativo. Do outro lado, o país forma por ano 45 bacharéis em direito, 30 engenheiros e 18 médicos por 100 mil habitantes.
Vale desconfiar dessas três linhas antes de comparar. Elas vêm de conselhos diferentes, com regras de baixa diferentes, e a do Confea conta o sistema inteiro, com agrônomo, geólogo e tecnólogo junto. Nenhuma delas conta quem está de fato exercendo.
Medicina
Medicina é a profissão que mais mudou de tamanho relativo. Em 1994 o Brasil formava pouco mais de 7 mil médicos por ano. Em 2024 formou 38.501, cinco vezes mais, e o número ainda está subindo, porque boa parte das escolas abertas na última década ainda não tem turma formada.
Onde tem curso de medicina, ano a ano
Cada ponto é um município com pelo menos um curso presencial de medicina, e o tamanho acompanha a quantidade de cursos na cidade. Os pontos vazados são as cidades que estreiam naquele ano. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024.
O mapa deixa ver o desenho da expansão. Em 2009 havia curso de medicina em 112 municípios. Em 2024 são 293. A expansão aconteceu no interior. As capitais já tinham escola desde sempre, e boa parte dos cursos novos veio do programa Mais Médicos de 2013, que autorizou abertura com contrapartida de interiorização.
O problema aparece na etapa seguinte. Em medicina o diploma vira registro no CRM sem outro exame, então quem se forma vira médico. Só que virar especialista depende de residência, e aí a conta não fecha. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, em 2024 havia 16.189 vagas de primeiro ano de residência em especialidades de acesso direto, contra mais de 30 mil concluintes no ano anterior. Essa diferença era de 3.886 vagas em 2018 e passou de 11 mil em 2024. No mesmo período o número de estudantes de medicina cresceu 71%, de 167,7 mil para 287,4 mil, e o de residentes cresceu só 26%, de 37,7 mil para 47,7 mil.
Existe um detalhe que complica a leitura: parte das vagas de residência autorizadas fica sem ninguém. Em 2024 foram 4.659 vagas de primeiro ano não ocupadas, 19,2% do total, a menor taxa da série que começa em 2018 (o próprio estudo avisa que divulgações anteriores superestimavam esse número por falha de registro). Ou seja, falta vaga, mas falta principalmente nas especialidades e nas cidades que as pessoas procuram, com bolsa que compense.
Em que os médicos se especializam
Passe o mouse ou navegue com o teclado por uma fatia para ver quantos especialistas ela tem e quantos brasileiros existem para cada um deles. O painel mostra a população que um especialista daquela fatia tem pela frente: o primeiro boneco é o médico, e cada um dos outros vale 100 brasileiros. A rosca mostra as doze maiores especialidades e junta as outras 43 numa fatia só. Scheffer, M. et al. (2025), Demografia Médica no Brasil 2025, tabela 3, posição de dezembro de 2024. Conta título, não médico: dos 353.287 especialistas do país, 30,7% acumulam dois ou mais títulos (95.553 têm dois e 11.776 têm três), e por isso a soma dá 477.155.
Sete especialidades concentram metade de todos os títulos, e as vinte menores somam menos de 6%. A ponta de baixo é onde a conta aperta: Genética Médica tem 376 especialistas para 217 milhões de brasileiros, ou seja, um para cada 579 mil pessoas. Medicina de Emergência tem 917, e Radioterapia 849, num país que envelhece e no qual o câncer não para de crescer.
Direito
Direito é a maior das três e a que passou primeiro pela expansão. Em 1994 formava 27.198 pessoas por ano. Chegou a 126.109 em 2018, o pico da série, e caiu para 98.326 em 2024. Continua sendo a maior das três, com quase o triplo dos formados em medicina.
Onde tem curso de direito, ano a ano
Mesma leitura do mapa anterior, agora para direito. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024, cursos presenciais.
Direito é barato de oferecer: não precisa de laboratório, de hospital escola nem de equipamento, e por isso é o curso que uma faculdade nova costuma abrir primeiro. O mapa mostra isso: 695 municípios tinham curso presencial de direito em 2024, contra 293 com medicina.
O funil depois do diploma é o mais apertado das três. Para advogar é preciso passar no Exame de Ordem. Segundo o relatório Exame de Ordem em Números, da OAB com a FGV, a taxa média de aprovação é de 39% entre quem estudou em instituição pública e de 17% entre quem estudou em privada. Como 94% dos inscritos vêm de instituições privadas, a taxa efetiva do conjunto fica perto do número baixo. A OAB tem hoje 1.504.678 advogados inscritos e o Brasil forma perto de 100 mil bacharéis por ano, então a maior parte dessa gente nunca vai advogar.
Engenharia
Engenharia é a que mais oscilou. Subiu de 15.319 formados em 1994 para 126.451 em 2018, quase empatando com direito, e caiu para 65.189 em 2024. Perdeu praticamente metade em seis anos. O curso que puxou a subida e a descida foi engenharia civil: 18.392 formados em 2014, 49.121 em 2018 e 17.305 em 2024, de volta a um patamar abaixo do de dez anos antes. Somando o ensino a distância, que só engenharia tem entre as três, 2024 fecha em 87.718.
Onde tem curso de engenharia, ano a ano
Mesma leitura dos mapas anteriores, agora para engenharia, somando todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia". Só cursos presenciais: polo de EaD não é faculdade instalada na cidade, e contar polo levaria de 801 para 2.538 municípios em 2024. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024.
A curva da engenharia acompanha o investimento. A subida coincide com o REUNI, com a expansão do FIES e do ProUni e com o ciclo de obras de 2010 a 2014. A descida começa depois da recessão de 2014 a 2016, quando a construção civil e a infraestrutura pararam de contratar. Quem entrou no curso em 2013 se formou em 2018, no pico, e encontrou um mercado que já tinha encolhido.
O funil da engenharia é o mais difícil de enxergar dos três. O registro no CREA é obrigatório para assinar projeto e assumir responsabilidade técnica, mas boa parte dos formados vai para funções que não exigem registro. O Confea tem cerca de 1,2 milhão de profissionais ativos e registrou perto de 74 mil novos profissionais em 2014 contra cerca de 43 mil em 2020. Como não existe exame de entrada, não dá para saber quantos dos formados estão trabalhando como engenheiros, e o próprio Confea trata isso como uma lacuna.
Quantos dos que entram chegam ao fim
- Medicina
- Direito
- Engenharia
Formados de um ano divididos pelos ingressantes da turma que entrou na duração nominal do curso antes (6 anos em medicina, 5 em direito e engenharia). Não é a evasão de uma turma acompanhada aluno a aluno, e sim a razão entre dois fluxos, que é o que a sinopse do INEP permite calcular. Transferência, reingresso e formatura fora do prazo entram na conta, então valores acima de 100% são possíveis e não são erro. INEP, Censo da Educação Superior, 2009 a 2024, cursos presenciais.
Essa é a primeira perda, e ela acontece antes do diploma. Em 2024 a razão foi de 95% em medicina, 39% em direito e 33% em engenharia. Medicina quase não perde gente pelo caminho. Direito e engenharia perdem cerca de dois terços da turma, e engenharia perde um pouco mais, o que é consistente com o que se sabe sobre evasão em cursos com carga pesada de cálculo e física.
Somando as duas perdas, o funil de cada profissão fica com um formato bem diferente. Em medicina quase todo mundo que entra vira médico, e o aperto vem depois, na especialização. Em direito a maior parte chega ao diploma e para no Exame de Ordem. Em engenharia a maior parte da perda acontece dentro do curso, e o que vem depois do diploma ninguém consegue medir.
O acumulado de 31 anos
- Medicina
- Direito
- Engenharia
Soma de todos os formados desde 1994, ano a ano. INEP, Censo da Educação Superior, cursos presenciais. Não é o número de profissionais vivos e em atividade: quem se formou antes de 1994 não entra, e quem morreu, se aposentou ou mudou de ramo continua na conta.
Entre 1994 e 2024 o Brasil formou 2.502.237 bacharéis em direito, 1.605.858 engenheiros e 453.645 médicos. Somando as três, quase 4,6 milhões de diplomas em 31 anos.
Comparar esse acumulado com o estoque dos conselhos diz muita coisa, desde que se leia com cuidado. Direito formou 2,5 milhões de bacharéis e a OAB tem 1,5 milhão de inscritos, mesmo contando quem se formou antes de 1994: sobra perto de um milhão de pessoas com diploma de direito que não estão na Ordem. Medicina é o contrário, com 453 mil formados no período e 597 mil médicos registrados, porque o estoque carrega décadas anteriores de formatura. Engenharia formou 1,6 milhão e o sistema Confea/CREA tem 1,15 milhão de inscritos, num total que ainda inclui agrônomos, geólogos e tecnólogos.
Como o Brasil se compara
Os três painéis não medem a mesma coisa, e trocar de aba troca o indicador junto com a profissão. Medicina e direito são estoque, ou seja, quantos profissionais existem hoje. Engenharia é fluxo, quantos saem por ano, porque não existe registro internacional comparável de engenheiro em atividade. O conjunto de países também muda de painel para painel, conforme quem publica o dado. Passe o mouse sobre uma linha do painel de direito para ver a fonte daquele país.
O Brasil tem 2,36 médicos por mil habitantes. Nesta seleção de países fica em penúltimo, à frente só da África do Sul e da Índia, e atrás de Colômbia, México, Coreia do Sul e Japão. É esse número que sustenta a política de abrir escola médica, e ele é real. Ele só não diz onde esses médicos estão: a média nacional esconde uma diferença enorme entre a capital e o interior do Norte, e abrir escola em cidade média resolve isso melhor do que abrir na capital, que era exatamente a aposta do Mais Médicos.
Troque para direito no controle acima e o Brasil vai do fim da lista para o topo dela. São 710 advogados por 100 mil habitantes, quase o dobro dos Estados Unidos (389) e mais que o triplo da Alemanha (198). Não achei outro país que chegue perto.
Esse painel de direito é o mais frágil dos três, e vale avisar antes de você ler o número. Não existe base única: montei ordem por ordem, com a OAB, a ABA americana e as estatísticas do CCBE para a Europa, cada uma com sua data de referência. E a definição de advogado muda entre países: nos Estados Unidos conta quem passou no exame da bar association de um estado, na Alemanha o Rechtsanwalt exclui juízes e promotores, e no Reino Unido o número aqui só cobre solicitors. Mesmo com toda essa folga de definição, a distância do Brasil para o segundo colocado é grande demais para vir só daí.
Em engenharia não existe registro internacional comparável de profissional em atividade, então o painel troca de medida e mostra fluxo: a parcela dos formados no ensino superior que vem de engenharia. Nessa régua o Brasil fica no meio, com 13% dos formados, contra 21% na Alemanha e 20% na Coreia do Sul. Vale lembrar que essa é a área ampla da classificação internacional, que junta engenharia, produção e construção, e por isso o número não bate com o resto desta página.
Como saber se um mercado está saturado
Com censo da educação, não dá. Ele registra matrícula e diploma, e não diz se o engenheiro formado está empregado, quanto ganha ou se trabalha na área. Medir saturação de verdade pede PNAD ou RAIS, que este estudo não usa.
O que o dado daqui permite é olhar um indicador que chega perto: quantos candidatos disputam cada vaga. Quando as pessoas param de se inscrever num curso, elas estão lendo sobre a profissão alguma coisa que a contagem de diplomas não mostra.
Em 2024, contando só o presencial, foram 16,5 candidatos por vaga em medicina, 2,1 em direito e 0,97 em engenharia. Engenharia recebeu 612.568 inscrições para 633.998 vagas, ou seja, menos gente se inscrevendo do que vaga aberta. Em 2012 essa mesma razão era 4,2. Somando o EaD, que responde por quase toda a oferta nova de engenharia, ela cai para 0,54.
A outra ponta do indicador é a vaga que ninguém ocupa. Em 2024 ficaram vazias 11% das vagas de medicina, 55% das de direito e 79% das de engenharia (82% contando EaD).
Duas ressalvas antes de tratar isso como prova. A primeira é que o número mede o mercado do curso, não o do profissional: vaga vazia diz que as pessoas pararam de querer entrar, o que pode vir da perspectiva da profissão, do preço da mensalidade ou de a vaga estar na cidade errada. A segunda é que os dois mercados podem apontar para lados diferentes. Medicina tem 16 candidatos por vaga, o que indica curso disputado, e ao mesmo tempo forma cinco vezes mais gente por ano do que formava em 1994, que é o que costuma vir antes de um estoque saturar.
O que justifica a queda de engenheiros
No gráfico de formados por ano, engenharia cai de 126.451 em 2018 para 65.189 em 2024, uma queda de 48%. Parte dessa queda é da série, não da profissão. São três coisas somadas.
O ensino a distância está fora da série longa. Essa escolha é de propósito, para não emendar duas medidas diferentes no mesmo gráfico, mas ela pesa cada vez mais: em 2024 o EaD formou 22.529 engenheiros, 26% do total. Contando os dois, a queda desde 2018 é de 32%, não de 48%.
Entrou menos gente cinco anos antes. Engenharia leva cinco anos, e os ingressantes (presencial mais EaD) caíram de 375.340 em 2014 para 246.207 em 2019. É essa turma menor que se formou agora.
E menos gente terminou. Contando presencial mais EaD, engenharia entregava 40% da turma de entrada em 2018 e entrega 36% em 2024. A figura de evasão mais acima usa só o presencial, e por isso mostra uma queda maior, de 40% para 33%. Direito caiu junto, de 53% para 39%, e medicina segue perto de 95%.
As duas últimas explicam a queda inteira, e nessa ordem: a turma de entrada encolheu 24% e a parcela que chega ao fim caiu mais 10%, o que multiplicado dá os 32%.
Vale olhar para onde isso aponta. Os ingressantes de engenharia já voltaram a subir e chegaram a 321.592 em 2024, perto do pico de 2014, com 59% deles entrando por EaD. Se a parcela que termina continuar em 34%, o número de formados volta a subir por volta de 2029. Isso é aritmética da série, não previsão: depende de a evasão do EaD se parecer com a do presencial, e ainda não há turma completa para dizer que se parece.
Por que entrou menos gente
A conta acima diz onde a queda aparece na série. Ela não diz por que menos gente escolheu engenharia entre 2013 e 2019, e essa parte não está no censo da educação. Duas coisas mudaram de preço ao mesmo tempo: o crédito que pagava o curso e o investimento que contratava o formado.
O crédito sumiu. Os novos contratos do FIES foram de 732 mil em 2014 para 311 mil em 2015 e 204 mil em 2016, pelos números do FNDE compilados pela ABMES. Engenharia é curso de cinco anos, caro e majoritariamente privado, ou seja, o tipo de curso que mais depende de financiamento para encher a turma. O estudo do Confea de 2025 lê a série do mesmo jeito e credita a expansão de 2009 a 2014 ao REUNI, ao FIES e ao ProUni.
O investimento caiu junto. A formação bruta de capital fixo saiu de 20,9% do PIB em 2013 para 14,6% em 2017 e ainda estava em 16,9% em 2024 (Banco Mundial). Vale voltar à régua da primeira seção: engenharia se mede contra taxa de investimento, e o país passou a investir quase um terço a menos, em proporção do PIB, do que investia no pico. O Confea enxerga o mesmo movimento pelo lado do conselho, com os novos registros no CREA caindo de cerca de 74 mil em 2014 para 43 mil em 2020, acompanhando o investimento público em infraestrutura.
E parte da turma trocou de porta. Contei os ingressantes da área de computação e tecnologia da informação na mesma sinopse do INEP, com o mesmo método que uso para engenharia. Foram 145.975 em 2014, 183.883 em 2019 e 489.067 em 2024. Em 2024 computação passou engenharia nas duas pontas, pela primeira vez na série: 489.067 ingressantes contra 321.592, e 100.488 formados contra 87.718.
Somadas, as duas áreas levavam 16,8% de todos os ingressantes do ensino superior brasileiro em 2014. Caíram para 11,8% em 2019 e voltaram a 16,2% em 2024. A parcela do país que entra por uma porta técnica está praticamente onde estava dez anos antes. O que mudou foi a divisão entre as duas portas: engenharia saiu de 12,1% para 6,4% dos ingressantes e computação subiu de 4,7% para 9,8%.
Isso não prova que a mesma pessoa desistiu de engenharia civil e foi para análise de sistemas, porque o censo conta matrícula e não segue indivíduo. Mas põe limite na leitura de que o jovem brasileiro largou a formação técnica. Ele mudou de curso dentro dela.
Pelo mesmo motivo vale desconfiar da recuperação dos ingressantes de engenharia. Ela veio da oferta: em 2024 o curso recebeu 0,54 inscrição por vaga contando EaD, e 59% dos ingressantes entraram a distância. Um curso mais barato e mais fácil de entrar enche a turma sem que nada tenha mudado do lado de quem contrata.
O que os outros estudos concluíram
Este estudo conta diplomas, e a pergunta que abre a página, se o Brasil forma gente demais ou de menos, precisa de dado de mercado de trabalho. Sobre isso já existe literatura. Vale pôr as conclusões dela ao lado das minhas, inclusive onde não batem.
Engenharia: não havia apagão, e a maior parte dos formados nunca ocupou um posto de engenheiro. Lins, Salerno, Araújo, Gomes, Nascimento e Toledo publicaram em 2014, na Novos Estudos CEBRAP, uma sistematização do debate sobre a falta de engenheiros. A conclusão é que os dados não sustentam escassez generalizada: entre 2000 e 2011 os formados cresceram 8,7% ao ano contra 3,4% do PIB, o desemprego entre engenheiros caiu de 4% para 2% e o rendimento deles ficou estável perto de 4,5 vezes a média do trabalhador. O que os autores encontram são quatro escassezes específicas: qualidade da formação, falta de engenheiro experiente para liderar projeto, buracos em áreas como naval, petróleo e mineração, e concentração regional. E um número que muda a conversa inteira: em 2009, 38% dos formados em engenharia ocupavam postos típicos de engenharia, contra 29% em 2000.
Esses 38% não conversam com os 78% do Confea, e a diferença é de universo. O mini-censo do conselho ouviu 48 mil profissionais registrados entre setembro de 2024 e fevereiro de 2025 e encontrou 92% em exercício e 78% atuando na área de formação, perguntando a quem se registrou e respondeu. O artigo de 2014 parte do censo demográfico, que alcança todo mundo com diploma, registrado ou não. Os dois podem estar certos ao mesmo tempo, e a distância entre eles é a mesma que aparece na seção do acumulado: 1,6 milhão de diplomas de engenharia desde 1994 contra 1,15 milhão de inscritos no sistema Confea/CREA, um total que ainda inclui agrônomos, geólogos e tecnólogos.
O próprio conselho chega perto disso. O estudo do Confea de 2025 relata taxa de conclusão abaixo de 40% nos cursos de engenharia, defasagem entre a formatura e o registro e forte concentração regional, com mais de 45% dos registros ativos no Sudeste e menos de 5% no Norte. Ele também é o trabalho do qual esta página mais se afasta em número: põe o pico de concluintes em 2014, com mais de 106 mil, e 73 mil em 2022. Minha contagem põe o pico em 2018, com 128.866 somando EaD, e dá 97.666 em 2022. Não consegui reproduzir os dois números nem pela definição por nome de curso nem pela área inteira da classificação do INEP, que dá 94.782 concluintes em 2014. É o tipo de divergência que nasce da definição de engenharia e do ano de referência da sinopse, e é a razão de este estudo publicar o script que lê cada arquivo.
Medicina: a discussão já saiu do volume. A Demografia Médica no Brasil 2025 mostra que 48 municípios com 500 mil habitantes ou mais concentram 377.787 médicos, 57,8% do total, para 30,9% da população, com 5,75 médicos por mil habitantes contra 0,57 nas cidades de 5 a 10 mil. Os autores tratam a distribuição e a qualidade da expansão como o problema aberto, e não a quantidade de escolas. Bate com o que aparece aqui: o país forma cinco vezes mais médicos do que em 1994, tem 2,36 por mil habitantes e oferece 16.189 vagas de residência de acesso direto para 38.501 formados por ano.
Direito: o filtro está fora da faculdade. O Exame de Ordem em Números, da FGV Projetos com a OAB, é a série que mede esse funil, e é dela que sai a aprovação média de 17% em faculdade privada usada mais acima. Nenhuma das três profissões tem um corte tão grande entre o diploma e a carteira, e é por isso que a contagem de bacharéis diz tão pouco sobre quantos advogados o país tem.
E, para as três, o diploma vale menos do que valia. Schymura mediu isso no blog do IBRE da FGV, em outubro de 2024, com a PNAD Contínua: quem tem superior completo ganhava 152% a mais do que quem tem 12 a 15 anos de estudo em 2012, e passou a ganhar 126% a mais em 2024. O rendimento real de quem tem superior caiu de R$ 7.495 para R$ 6.619 no período, enquanto o número de trabalhadores com superior completo quase dobrou, de 12 milhões para 22,4 milhões. Isso não é das três profissões, é do ensino superior inteiro, e é o pano de fundo de qualquer conta de saturação feita nesta página.
Com tudo isso na mesa dá para responder a pergunta da abertura, uma profissão de cada vez. Em medicina o país ainda forma pouco para a régua internacional e forma para os lugares errados, e o aperto já se mudou do diploma para a residência. Em direito o país forma muito mais bacharel do que advogado, e quem faz o corte é o Exame de Ordem. Em engenharia o volume de diplomas nunca foi o problema apontado pela literatura, e sim o fato de que só uma parte dos formados vai trabalhar como engenheiro, o que depende de quanto o país investe e não do que a faculdade faz.
O que pode estar errado aqui
Estes gráficos contam diplomas. Tudo aqui vem do censo da educação, que registra formatura. Registro em conselho conta outra coisa, que inclui aposentado, inativo e quem tem inscrição em mais de um estado. Nenhum dos dois conta quem está de fato atendendo, defendendo ou assinando projeto.
A média nacional esconde a distribuição. "Faltam médicos" e "há médicos concentrados nas capitais" são diagnósticos diferentes e pedem políticas diferentes. Os mapas deste estudo mostram onde estão as escolas, não onde estão os profissionais formados por elas, que é outra pergunta e precisa de outro dado.
Quem abre faculdade está respondendo à procura por diploma. Quem paga a mensalidade é o aluno, então é a essa procura que a oferta de vagas responde. A procura da sociedade pelo serviço é outra coisa, e as duas se descolam. O gráfico de cursos abertos por ano mede a primeira, e vale não confundir uma com a outra na hora de ler.
A definição de engenharia é uma escolha minha. Somei todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia" e deixei arquitetura de fora. Quem usa a área inteira da classificação do INEP ("Engenharia, produção e construção") chega a números bem maiores, porque arquitetura, construção e produção entram junto. As duas contagens são defensáveis, mas não são comparáveis entre si, e é por isso que este texto não repete números de engenharia de outras publicações sem conferir a definição.
Computação não é contada pela mesma regra. Engenharia aqui é a soma dos cursos cujo nome começa por "Engenharia". Computação é a área geral 06 da classificação do INEP (computação e tecnologias da informação e comunicação), porque o rótulo "Sistemas de informação" agrega os tecnólogos e um critério por nome deixaria de fora quase toda a expansão recente. As duas contagens não se sobrepõem: engenharia de computação e engenharia de software entram em engenharia, não em computação.
Duas quebras na série. A sinopse do INEP mudou de taxonomia em 1999 e desagregou engenharia, então a contagem de cursos de engenharia antes e depois disso não é comparável (a de formados é). E até 2008 a sinopse por curso só publica presencial, então a série longa deste estudo é toda presencial, com o ensino a distância entrando à parte a partir de 2009.
A população é projeção. Os números por 100 mil habitantes usam a projeção do IBGE de 2018. O Censo de 2022 contou 203,1 milhões de pessoas e a Pesquisa Pós-Enumeratória corrigiu para 210,9 milhões, abaixo da projeção. Usei uma série só, para não abrir um degrau artificial no meio do gráfico, mas isso significa que os valores por habitante dos anos recentes estão levemente subestimados.
Referências
Dados de formação
- INEP. Censo da Educação Superior, Sinopses Estatísticas, edições de 1995 a 2024. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Fonte de todos os números de concluintes, cursos, vagas, ingressantes e matrículas deste estudo. As sinopses de 1995 e 1996 estão em planilha, as de 1997 a 2000 em PDF, as de 2001 a 2008 em planilha e as de 2009 em diante em pacote com anexos por município.
- INEP (2000). Evolução do Ensino Superior: Graduação 1980-1998. Brasília. Consultada para tentar recuar a série até 1980. Só traz concluintes por natureza da instituição e por área de conhecimento, sem série anual por curso, e por isso a série deste estudo começa em 1994.
- IBGE. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação, revisão 2018 (SIDRA, tabela 7358). Denominador dos números por 100 mil habitantes.
- IBGE. Censo Demográfico 2022 e Pesquisa Pós-Enumeratória. Base da ressalva sobre a população usada.
Medicina e residência
- Scheffer, M. et al. (2025). Demografia Médica no Brasil 2025. São Paulo: FMUSP, AMB e Ministério da Saúde. Origem dos números de vagas de residência de acesso direto, da defasagem em relação aos concluintes e da evolução de matriculados e residentes entre 2018 e 2024.
- AMB (2025). Panorama da Residência Médica no Brasil. Associação Médica Brasileira. Vagas autorizadas, ocupadas e ociosas.
- Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM/Sesu/MEC). Vagas de residência médica autorizadas e ocupadas. Fonte primária dos dados de residência citados acima.
Direito e advocacia
- OAB. Quadro da Advocacia, Conselho Federal. Total de advogados, estagiários e inscrições suplementares por seccional, atualizado diariamente pela própria OAB.
- ABA (2024). National Lawyer Population Survey. American Bar Association. 1.322.649 advogados ativos nos Estados Unidos em 1º de janeiro de 2024, usado no comparativo internacional.
- CCBE (2024). Lawyers' Statistics 2024: number of lawyers in European countries. Council of Bars and Law Societies of Europe. Advogados inscritos em cada ordem europeia, usados no comparativo internacional.
- OAB e FGV Projetos (2020). Exame de Ordem em Números, volume IV. Taxas médias de aprovação por natureza da instituição e distribuição dos inscritos.
Engenharia
- Confea (2025). A engenharia em números: uma análise histórica da profissão a partir de dados abertos do sistema Confea/Crea e do Censo do Ensino Superior. CONTECC 2025. Novos registros profissionais por ano e a defasagem entre formatura e registro.
- Confea e Quaest (2025). Mini-censo Confea 2024: profissionais com a palavra. Proporção de registrados em exercício e atuando na área de formação.
- Confea (2024). Total de profissionais inscritos ativos no sistema Confea/CREA, 29 de agosto de 2024. 1.150.062 profissionais, somando engenheiros, agrônomos, geólogos, geógrafos, meteorologistas e tecnólogos.
Mercado de trabalho e literatura
- Lins, L. M.; Salerno, M. S.; Araújo, B. C.; Gomes, L. A. V.; Nascimento, P. A. M. M.; Toledo, D. (2014). Escassez de engenheiros no Brasil? Uma proposta de sistematização do debate. Novos Estudos CEBRAP, n. 98. Origem da conclusão de que não há escassez generalizada, das quatro escassezes específicas e da parcela dos formados em engenharia que ocupa postos típicos de engenharia (29% em 2000, 38% em 2009), apurada pelos censos demográficos.
- Schymura, L. G. (2024). Diferencial salarial do ensino superior cai no Brasil, mas ainda é elevado e recompensador. Blog do IBRE, FGV, 15 de outubro de 2024. Queda do prêmio salarial do diploma entre 2012 e 2024, medida na PNAD Contínua.
- ABMES (2017), a partir de dados do FNDE. Novos contratos do FIES por ano. Série usada na seção sobre a queda da entrada em engenharia: 732 mil contratos em 2014, 311 mil em 2015 e 204 mil em 2016.
- Banco Mundial. World Development Indicators, indicador NE.GDI.FTOT.ZS (formação bruta de capital fixo, % do PIB). Taxa de investimento do Brasil, usada como régua de demanda por engenharia.
Comparação internacional
- Banco Mundial. World Development Indicators, indicador SH.MED.PHYS.ZS (physicians per 1,000 people). Compilado a partir do Global Health Workforce Statistics da OMS.
- Banco Mundial. World Development Indicators, indicador SE.TER.GRAD.EN.ZS (parcela dos formados vinda de engenharia, produção e construção) e SP.POP.TOTL (população). A fonte primária do primeiro é o Instituto de Estatística da UNESCO. China e Japão não publicam esse recorte.
- flagcdn.com. Bandeiras nacionais. Imagens das bandeiras usadas no comparativo.
Geometria dos mapas
- IBGE. Malha municipal e estadual do Brasil. Contorno nacional e divisas internas, simplificados para SVG pelo script do próprio site.
- Base municípios-brasileiros. Coordenadas de latitude e longitude por código IBGE de município.
Os dados foram extraídos das fontes originais em agosto de 2026 pelo script scripts/profissoes/emitir.py, que está no repositório do site junto com o leitor de cada formato de sinopse. Confira as citações antes de reusar academicamente.